31 de julho de 2009

23.09.07


YOU KNOW YOU´RE RIGHT

I will never bother you
I will never promise to
I will never follow you
I will never bother you
Never speak a word again
I will crawl away for good

I will move away from here
You won't be afraid of fear
No thought was put into this
I always knew it would come to this
Things have never been so swell
I have never failed to fail

Pain, Pain, Pain

You know you're right
You know you're right
You know you're right

Nirvana
"You know you´re right"

28 de julho de 2009

time is money

O PAPALAGUI NÃO TEM TEMPO

O
Papalagui gosta do metal redondo e do papel pesado; gosta de meter para dentro da barriga muitos líquidos que saem das frutas mortas, além da carne do porco e da vaca, e de outros animais horríveis; mas ele gosta, principalmente, daquilo que não se pode pegar e que, no entanto, existe: o tempo. Fala muito no tempo, diz muita tolice a respeito do tempo. Nunca existe mais tempo do que aquele que vai do nascer ao pôr do sol e, no entanto, isto nunca é suficiente para o Papalagui.

O
Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem; e acusa o Grande Espírito por não ter lhe dado mais. Chega a blasfemar contra Deus, contra a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo em pedaços cada dia que se levanta de acordo com um plano muito exato. Divide o dia, tal qual um homem partiria um côco mole com uma faca em pedaços cada vez menores. Todos os pedaços têm nome: segundo, minuto, hora. O segundo é menor do que o minuto, este é menor do que a hora; juntos, minutos e segundos formam a hora e são precisos sessenta minutos e uma quantidade maior de segundos para fazer o que se chama hora.

É uma coisa complicada que nunca entendi porque faz mal, estar pensando mais do que é necessário em coisas assim pueris. Mas o
Papalagui faz disso uma ciência importante: os homens, as mulheres, até as crianças que mal se têm nas pernas usam tanga, e correntes grossas de metal, ou pendurada no pescoço, ou atadas com tiras de couro no pulso, certa pequena máquina, redonda, na qual lêem o tempo, leitura que não é fácil, que se ensina às crianças, aproximando-lhes do ouvido a máquina para divertí-las.

Esta máquina fácil de carregar em dois dedos, parece-se por dentro com as máquinas que existem dentro dos grandes navios, que todos vós conheceis. Mas também existem máquinas do tempo grandes e pesadas, que se colocam dentro das cabanas, ou se suspendem bem alto para serem vistas de longe. Para indicar que se passou uma parte do tempo, há do lado de fora da máquina uns pequenos dedos; ao mesmo tempo, a máquina grita e um espírito bate no ferro que está do lado de dentro. Sim, produz-se muito barulho, um grande estrondo nas cidades européias quando uma parte do tempo passa.

Ao escutar este barulho, o
Papalagui queixa-se: "Que tristeza que mais uma hora tenha se passado". O Papalagui faz, então uma cara feia, como um homem que sofre muito; e no entanto, logo depois, vem outra hora novinha.

Só consigo entender isso pensando que se trata de doença grave. "O Tempo voa!"; "O Tempo corre feito um corcel!"; "Dêem um pouco mais de tempo": são as queixas do Branco.

Digo que deve ser uma espécie de doença porque, supondo que o Branco queira fazer alguma coisa, que seu coração queime de desejo, por exemplo, de sair para o sol, ou passear de canoa no rio, ou namorar sua mulher, o que acontece? Ele quase sempre estraga boa parte do seu prazer pensando, obstinado: "Não tenho tempo de me divertir". O tempo que ele tanto quer está ali, mas ele não consegue vê-lo. Fala em uma quantidade de coisas que lhe tomam o tempo, agarra-se, taciturno, queixoso, ao trabalho que não lhe dá alegria, que não o diverte, ao qual ninguém o obriga se não ele próprio. Mas, se de repente vê que tem tempo, que o tempo está ali mesmo, ou quando alguém lhe dá um tempo – os
Papalaguis estão sempre dando tempo uns aos outros, é uma das ações que mais se aprecia – aí não se sente feliz, ou porque lhe falta o desejo, ou está cansado do trabalho sem alegria. E está sempre querendo fazer amanhã o que tem tempo para fazer hoje.

Certos
Papalaguis dizem que nunca têm tempo: correm feito loucos de um lado para o outro; como se estivessem possuídos pelo aitú; e por onde passam levam a desgraça e o pavor por terem perdido o seu tempo. É um estado horrível, esta possessão que não há médico que cure, que contagia muitos homens e os faz desgraçados.

Todo
Papalagui é possuído pelo medo de perder seu tempo. Por isso todos sabem exatamente (e não só os homens, mas as mulheres e as crianças), quantas vezes a Lua e o Sol saíram desde que, pela primeira vez viram a grande luz. De fato, isso é tão sério que, a certos intervalos de tempo, se fazem festa com flores e comes e bebes. Muitas vezes percebi que achavam esquisito eu dizer, rindo, quando me perguntavam quantos anos tinha: "Não sei..." "Mas devias saber". Calava-me e pensava que era melhor não saber.

Ter tantos anos significa ter vivido um número preciso de Luas. É perigosa essa maneira de indagar e contar o número das luas porque assim se chega a saber quantas Luas dura a vida da maior parte dos homens. Todos prestam muita atenção nisso e, passando um número muito grande de Luas, dizem: "Agora, não vou demorar a morrer". E então essas pessoas perdem a alegria e morrem mesmo dentro de pouco tempo.

Pouca gente há na Europa que tenha tempo, de fato; talvez ninguém mesmo. É por isto que quase todos levam a vida correndo com a velocidade de pedras atiradas por alguém. Quase todos andam olhando e balançando com os braços para caminhar o mais depressa possível. Se alguém o faz parar, dizem, mal-humorados: "Não me aborreças, não tenho tempo, vê se aproveitas melhor o teu.". Dá a impressão de que aquele que anda depressa, vale mais e é mais valente do que aquele que anda devagar.

Vi um homem com a cabeça estourando, os olhos virados, a boca aberta feito a de um peixe agonizante, a cara passando de vermelha a verde, batendo com as mãos e os pés, porque um criado tinha chegado um pouquinho mais tarde do que prometera. Esse pouquinho era para ele um grande prejuízo, prejuízo irreparável. O criado teve de ir-se embora, o
Papalagui expulsou-o e recriminou-o: "Roubaste-me tempo demais! Quem não presta atenção ao tempo, não merece o tempo que tem!".

Só uma vez é que deparei com um homem que tinha muito tempo, que nunca se queixava de não tê-lo, mas era pobre; sujo, e desprezado. Os outros passavam longe dele, ninguém lhe dava importância. Não compreendi essa atitude porque ele andava sem pressa, com os olhos sorrindo, mansa, suavemente. Quando lhe falei, fez uma careta e disse, tristemente: "Nunca soube aproveitar o tempo; por isto, sou pobre, sou um bobalhão". Tinha tempo, mas não era feliz.

O
Papalagui emprega todas as forças que tem tentando alongar o tempo o mais possível. Serve-se da água e do fogo, da tempestade e dos relâmpagos que brilham no céu, para fazer parar o tempo. Põe rodas de ferro nos pés, dá asas às palavras que diz para ter mais tempo. Mas para que todo este esforço? O que é que o Papalagui faz com o tempo? Nunca compreendi bem, pelos seus gestos e suas palavras, ele sempre tenha me dado a impressão de alguém a quem o Grande Espírito convidou para um fono.

Acho que o tempo lhe escapa tal qual a cobra na mão molhada, justamente porque a segura com força demais. O
Papalagui não espera que o tempo venha até ele, mas sai ao seu alcance, sempre, sempre com as mãos estendidas e não lhe dá descanso, não deixa que o tempo descanse ao Sol. O tempo é quieto, pacato, gosta de descansar, de deitar-se à vontade na esteira. O Papalagui não sabe perceber onde está o tempo, não o entende e é por isto que o maltrata com os seus costumes rudes.

Ó amados irmãos! Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adianta-se aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele. Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega. Sabemos que no devido tempo havemos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas Luas nossas passaram. Devemos livrar o pobre
Papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhes ensinar que, do nascer ao pôr do Sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar.

(Extraído de O Papalagui. Comentários de Tuiávii, chefe da tribo nos Mares do Sul. Editora Marco Zero, Rio de Janeiro.)

Neste livro Tuiávii, Chefe da Tribo Tiaveá na Polinésia, relata ao seu povo as suas impressões a respeito do homem branco, seus costumes e sua cosmologia, observados durante uma viagem que fez à Europa. Vários objetos e atitudes tidos por nós como normais, como saber a data em que nasceu, ter uma profissão e pra que serve uma campainha, são descritos por um olhar (ainda) não domesticado pela civilização. Somos tão adestrados por uma ética judaico-cristã-ocidental-capitalista-necessitária que na maior parte das vezes enxergamos as coisas por uma única perspectiva, já de antemão marcada como normal ou anômala, correta ou desviante, bela ou horrenda. Por que não abrir outras janelas, perscrutar outros ângulos, familiarizar o estranho, estranhar o familiar, encontrar, como Lautréamont, a beleza no "encontro fortuito sobre uma mesa de dissecação, de uma máquina de costura e um guarda-chuva”?

Papalagui somos nós, o branco, o estrangeiro, o "civilizado". Traduzido literalmente, é aquele que furou o céu.



"mautito"

27 de julho de 2009

Why so serious?



Eu fiz o que faço melhor.

Peguei o seu planinho e fiz ele sair pela culatra.

Olhe o que eu fiz à cidade...

...com uns barris de gasolina e uma balas.

Sabe o que eu notei?

Ninguém entra em pânico enquanto corre como o planejado.

Mesmo se o plano for horripilante.

Se amanhã eu disser à imprensa que um vadio...

...vai levar tiro...

...ou se uns soldados vão se explodir...

Ninguém entra em pânico.

Porque tudo isso faz parte do plano.

Mas se eu disser que um prefeitinho vai morrer...

...todos ficam doidos!

Introduza um pouco de anarquia...

...altere a ordem estabelecida...

...e tudo vira caos.

Sou um agente do caos.

Sabe uma coisa do caos?

É O MEDO.

(Batman - The Dark Knight)

estranhamente humanos


Havia (des)comentado recentemente que gatos são estranhamente humanos, talvez por influência de Burroughs. O fato é que na última sexta o Montito foi protagonista de uma dramática cena de ciúmes. Mais humano, demasiadamente humano que ele, naquele dia, impossível. Não quero dizer que ciúmes seja o diferencial humano nesse caso, não é isso. Há outras cenas mais humanas que ciúmes, inclusive para um gato. Mesmo nessa foto, em que ele parece ou fazer pose de pensador, ou uma expressão de D´oh!, não foi tão humano quanto nesse memorável dia, em que ele mais parecia uma mulher histérica saída de um conto do Nelson Rodrigues do que um gato propriamente falando. Aliás, só faltou falar: ele miava desassossegadamente, de um lado para o outro, inquieto. Mordia ora um, ora outro. Chegou até a arremessar, abocanhando nossas pernas! No fim, tivemos que nos afastar: nós para um lado – da porta – e o gato para o outro.

Humanos, estranhamente humanos...

25 de julho de 2009

cajá-coeur


Montito, le chat


24 de julho de 2009

humanismo choramingão #2

A diferença de um ISO dez vezes menor (160) ilustra o post anterior. Outro título para essa foto seria "orkut é pra jacú" pronunciando orkut sem o T, orkú. Sou meio avesso às pessoas, confesso, mas a resistência é maior quando se trata de pessoas virtuais e internet-de-salão. Hipocrisia social não é uma regra, mas é quase uma constante no jogo social, virtual ou não. Muita estrela pra pouca constelação, muito sinalizar que apareceu, que "estive lá e lembrei de você". Quase um comunicar por comunicar em muitos casos, a internet é um ótimo instrumento que nos mantêm em contato com várias redes. Todavia não tenho medo de voodoo, mas tenho medo da Google. Assim como um certo episódio do pica-pau, em que ele diz que "voodoo é pra jacú", a internet é a busca da magia "simpática" – em partes – que saiu pela culatra do mundo ocidental.

De acordo com Mauss,
Para Frazer, são mágicas as práticas destinadas a produzir efeitos especiais pela aplicação das duas leis ditas de simpatia, lei de similaridade e lei de contiguidade, que ele formula do seguinte modo: "O semelhante produz o semelhante; as coisas que estiveram em contato, mas que já não estão mais, continuam a agir umas sobre as outras como se o contato persisitisse". Pode-se acrescentar como corolário: 'A parte está para o todo assim como a imagem para a coisa representada".

(...)o rito mágico age diretamente, sem a mediação de um agente espriritual; ademais, sua eficácia é necessária.

Não concorda, Iara?


humanismo choramingão #1

Não me lembro exatamente qual a distância focal dessa foto, mas é menor que a de uma objetiva normal de 50mm. Havia feito uma ode recente ao preto e branco e publico as primeiras fotos em cores! Contudo, o que eu gosto no p&b, e creio que essa foto exemplifica bem, é o seu efeito conjugado com a grande angular – que isola a pessoa na sua solidão. A ambiguidade da foto se dá em poder mostrar que o referente está lá, ou melhor, esteve lá, vívido no seu instante, expressivo na sua forma quase a descolar do papel; no entanto não se pode afirmar mais nada a partir daí. O referente adere à imagem que salta da foto. A foto é testemunha que ali foi preciso estar um objeto que refletisse luz. Mas não pode dizer mais nada sobre o sentido dessa luz. Às vezes não pode sequer rastreá-las. Fugacidade. A foto está com ruído devido ao alto ISO 1600. Não gosto de usar o flash, devido à sua luz estranhamente chapada. A abertura de diafragma foi de f/3,3 com 1/125s de exposição. Fiz alguns ajustes no histograma, para dar mais ênfase àquela luz que minha vó parece não olhar, mas mesmo assim está presente em seus olhos.

Em breve, mais da nossa programação em cores.

18 de julho de 2009

amarelo azul vermelho verde





A semana me inspirava amarelo, mas hoje foi vermelho. O dia começou cinza, apesar do friozinho azul lavado, tendendo ao branco. Sábado de julho, véspera de festa do rosário. As cores virão amanhã, pensei. Amanhã, sim, o dia será colorido, matizado, bem saturado. Hoje é a espera, a ante-sala do trono dominical dos reis congos. É quando o tempo tem a cor do vento, quando o vento banha o mundo com seus sais de prata. Qual não foi a minha surpresa quando a tarde azulou amarela? Digo amarela, embora queira dizer vermelha: sim, a tarde avermelhou-se sutilmente, partindo do branco, chegando de clarinho luminosa ao âmbar e aquiescendo ao aconchego da terra pouco antes do anoitecer. É a hora do dia mais perigosa, dizem. É quando "todos os gatos são pardos" segundo o ditado. Pois é nessa hora que o dia encontra a noite, que o sagrado e o profano se tocam igualando todos num só perfil. Hora proibida. O mundo por um instante fica indiferenciável. Rubramente indiferenciável. Somos sombras, constatamos; e podemos nos misturar.


A estrela chorou rosa, há muito tempo atrás. Hoje, bem cedo, ela sorriu vermelho.

16 de julho de 2009

et lux in tenebris lucet!


Enfim chegou, a danada. Uma Panasonic Lumix DMC-FZ28. Agora posso brincar de ler o mundo imageticamente, por meio de luzes e cores. Aliás, prefiro luzes e sombras. Cores não me atraem tanto. Encanto-me mais com as fotos que se concentram mais nas formas, na textura e na expressão do motivo a ser fotografado, conseguindo-se assim mais dramaticidade na imagem. Por incrível que parece, tem-se a impressão de que a foto fica mais viva, que o referente adere com mais vivacidade ao fotograma. Ademais, é mais fácil pensar numa composição em P&B do que colorida, onde deve-se levar em conta a harmonia das cores e fica mais difícil calibrar o "branco". Por hora, brinquemos!

12 de julho de 2009

une saison en enfer


Nuit de l´enfer

"J´ai avalé une fameuse gorgée de poison. – Trois fois béni soit le conseil qui m´est arrivé! – Les entrailles me brûlent. La violence du venin tord mes membres me rend difforme, me terrasse. Je meurs de soif, j´étouffe, je ne puis crier. C´est l´enfer, l´éternelle peine! Voyez comme le feu se relève! Je brûle comme il faut. Va, démon!"

Noite do inferno

"Engoli um senhor gole de veneno. – Três vezes abençoado seja o conselho que me deram! – As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prostra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo se ergue! Queimo como deve ser. Anda, demônio!"

Arthur Rimbaud

I need some coffee




Fui ao supermercado comprar café e fósforos. Trouxe R$ 20 em compras, menos café e fósforos. Padaria, here I go.

uma leitura interessada


Darcy Ribeiro deveria ser mais lido, ao menos mais estudado nas universidades, senão mesmo ser leitura recomendada na escola. Uma teoria da civilização brasileira feita por um brasileiro, uma perspectiva do seu povo feita por um autor que não se esquiva de dizer que faz tudo de uma determinada posição, que assume ser sua obra uma teoria genérica sem ter a pretensão de ser universalista. Suas posturas sobre a antropologia teórica, a gênese do provo brasileiro, a questão racial, a denúncia do genocídio de índios e negros nos moinhos de gastar gente, a importância das mulheres, a história política do Brasil e a problematização da educação deveriam ser mais consideradas.

Alguém que assume suas amizades, seus interlocutores, seus desafetos, sua visão local, sua afetação no campo, seu anthropologycal blues. Um homem apaixonado, vaidoso, espirituoso, de uma verve discursiva e criadora sem tamanho, que não nega sua intelectualidade engajada muito menos sua(s) história(s), sua leitura interessada do Brasil.

"Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"
  Darcy Ribeiro

Mineiro de Montes Claros, Darcy Ribeiro nasceu em 26 de outubro de 1922. Abandonou o curso de Medicina para fazer Antropologia. Além de etnólogo, foi professor, educador, ensaísta, romancista, Reitor da Universidade de Brasília, Ministro da Educação, Ministro-Chefe da Casa Civil, Senador e recebeu os títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne (França), da Universidade de Copenhague (Dinamarca), da Universidade do Uruguai e da Universidade da Venezuela.

Aqui estão os links da entrevista que Darcy (então senador do Rio de Janeiro pelo PDT) deu ao programa Roda Viva, em 1995:

Darcy Ribeiro - Parte 1

Darcy Ribeiro - Parte 2

Darcy Ribeiro - Parte 3

Darcy Ribeiro - Parte 4

Darcy Ribeiro - Parte 5

Darcy Ribeiro - Parte 6

Darcy Ribeiro - Parte 7

Darcy Ribeiro - Parte 8

11 de julho de 2009

V.

cabelo vermelho
e pele macia
quantos anos?
– alguém diria

eu dou vinte! – pelo cabelo
dou trinta, pela experiência
vale dezenove, rapazes, pelo pique
cinqüenta, cavalheiros, pela posição!
– ouvi quarenta, pelo conjunto?
mas a pele é alva....
mas a face é salgada!

e você, que sempre sonhou
tudo isso
carrega, insolente
a maldição do desejo
pagar o preço
da luxúria e opulência
que tanto desejaste

ah, se a vida fosse feita de botões!


(Encontrado em um caderno verde, datado de 18/01/2009)

************************

"(...)E como posso ser o teu amado se não me conheces, se sou apenas alguém que te veio pedir ajuda e de quem tiveste pena, pena das minhas dores e da minha ignorância, Por isso te amo, porque te ajudei e te ensinei, mas tu a mim é que não poderás amar-me, pois não me ensinaste nem ajudaste, Não tens nenhuma ferida, Encontrá-la-ás, se a procurares(...)"

(SARAMAGO, O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

eis o mistério da fé

Perversão
Estou cansado
De hipocrisia e afetação
Falha, culpa,
Falta, erro...
Eu quero é
Sossego!

Chega de pecado
Chega de necessidade,
Incompletude e indiferença.
Eu quero é que vença
A inocência,
A imprudência,
A indecência,
A eterna suficiência!

Sublime cacofonia,
Sinestesia sem covardia

(Encontrado em uma folha reciclada, transcrito para um caderno verde e datado do ano-estelar de Cervejasolidãoeradiohead)

amor, amar, atar, ator

Eles se conheciam há pouco, mas a atração fora mútua. Sempre que se encontravam, um flerte. Um comentário sutil, ambíguo, buscando a certeza do mesmo sentimento, recíproco, no olhar um do outro. Um dia, enfim, aconteceu. Ela ficou estranha, afastou-se. Ele quis saber se poderiam se ver de novo. Ela disse que não. Ele quis saber qual o problema.

Ela disse a ele que Lígia, do Tom...

...então ele disse a ela que Atrás da Porta, do Chico.

VI

Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licensioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordináro turbilhão.
Por que me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?

(HILDA HILST, Do Desejo)

10 de julho de 2009

To be or not to be, ou Can I play with madness?

Mais um ajuste no template do blog. Todo dia há algo a ajustar, um detalhe, um enquadramento, uma sombra, uma tonalidade de cor...

Hoje, quando enfim achava que estava bom, descubro uma falha grosseira. E o que mais me incomoda é justamente sua CRUEZA. Não fora fruto de uma dificuldade técnica, de um processo que eu desconhecia ou que exigia muito esforço; mas de uma displicência GRATUITA, sem volta, eterna. E incompleta na sua (im)possibilidade de um ajuste perfeito. "Mon français est très bizarre, je sais", mas eu sei conjugar o plural, porra! E dentre tantas coisas por pecar, logo essa...

_Seek?

_Sick...

A incompletude tinge os seres com a matiz da farsa. Se é incompleto, logo não é: falta ainda, falhou, pecou. A própria odisséia cristã é a busca pela perfeição, ou antes, pelo grau máximo que pode alcançar um ser limitado, sempre por completar. É preciso que se complete, que se busque a perfeição. Senão não é. Ou é só uma aparência, uma farsa, um fantoche, uma imitação.

Am I a joke? Are you a joke? I´m a joker, I´m the joker. 

Uma das muitas explicações para a loucura, para os desvios – a diferença vista sempre de antemão  como carência, a marginalização pré-estabelecida do outrocomportamentais, uso de drogas, dentre outros modos diferentes de existência é a deficiência do indivíduo, a insuficiência de algo que o impede de ser (por) completo, como se houvesse uma essência originária e fundante que lhe faltasse.

Sem uma perspectiva que permita ver o ser como evento, o é como estar, não se encontrará muita coisa. Ou apenas a perversão que se procura.

Why so serious?

9 de julho de 2009

flores astrais


l´écriture automatique de uma noite insone

Sono. Muito sono. Sibilante assovio assoprou. Meias vermelhas. Xadrez. Meias verdes. Losango. Uma porta roxa se abre. Um gato de vidro caminha sobre um tapete laranja. O globo estourou, e os cacos transformam-se em flores. Milhares e milhares de botões começam a estourar. Uma enxurrada vem lavar esse lago de pétalas. Tudo vira chá. Estamos numa xícara. O redemoinho começa. Aparece uma colher. A mulher voltou. Somos tragados pelo redemoinho. Não há fundo, não há fuga, não à fuga, não, a fuga! Ondas de chá.

A onda passou, lavou, passou, lavou, rejuvenesceu. E era doce...

8 de julho de 2009

les monades


Em seu Discurso de Metafísica, Leibniz nos fornece a noção de substância individual que mais tarde desenvolveria sob o conceito de mônada, em especial n´Os princípios da filosofia ou A monadologia . Partindo da res cogitans de Descartes, a substância pensante que distingue o sujeito como agente da ação – se eu penso, logo eu existo –, o filósofo alemão vai romper com o dualismo cartesiano ao rejeitar a substância material (res extensa), sendo cada mônada única na sua essência e na sua forma. Assim temos não duas substâncias completamente diferentes e incomunicáveis que compõem o mundo, mas uma variedade delas que enquanto unidades simples contêm a multiplicidade do universo.

Cada mônada é uma perspectiva de Deus do universo, sendo Deus o grau supremo da perfeição. Toda substância é como o mundo inteiro, contém o mundo inteiro de determinado ponto de vista. Mas essa percepção do mundo se mostra em diferentes graus em cada uma. Assim, as mônadas distinguem-se segundo diferentes níveis de percepção do universo. Quanto mais perfeita, mais atribui-se ação a ela, pois mais percepções claras e distintas ela têm; ao contrário, quanto mais imperfeita, mais percepções confusas e obscuras do mundo, e portanto padece. Vale dizer que essas percepções são percepções de si, com diferentes graus de clareza em relação ao universo que contêm. As mônadas não se comunicam, "não têm janelas". Assim, para Leibniz, “uma criatura é mais perfeita que outra quando se encontra nela o que serve para dar a razão a priori do que se passa na outra, e por isso se diz que age sobre a outra”, ou seja, o que cada mônada percebe o faz internamente. Contudo, devido a uma harmonia pré-estabelecida do mundo, cria-se uma ilusão de causação.

Quem nunca pensou na seguinte hipótese, ao menos nas aulas de física do segundo grau:

Se fosse possível conhecer a posição, a velocidade e a direção de todas as partículas sub-atômicas do universo (supondo que conhecêssemos as elementares, já que todo dia se descobre uma), saberíamos onde estariam num determinado instante t. Não podemos fazer isso, pois quanto mais temos precisão na informação sobre a velocidade da partícula, menos temos sobre sua posição (segundo minha física de segundo grau). Mas pensemos apenas na hipotése teórica, não na (im)possibilidade instrumental. Se assim é, num tempo onde o social (ele agiu diferente) é explicado pela psicologia (ele é doido) que é explicada pela biologia (a transmissão sináptica foi falha) que é explicada pela química (faltou serotonina) que é explicada pela física (o receptor estava com a polarização invertida), então teríamos um futuro pré-determinado?! Na verdade sim, mas isso não tolheria nossa liberdade para Leibniz. Os nossos atos seriam certos, mas não necessários. É um pouco aquela história de se pudessemos voltar atrás faríamos a mesma coisa, tomaríamos a mesma decisão. Liberdade não é ser indiferente quanto às escolhas, mas sim não haver coerção externa (algo que obrigue, que impeça de ser o contrário) que nos leve a isto e não àquilo.

O melhor mesmo é não padecer.

Algumas notas sobre Leibniz, pra quem se interessar.