28 de outubro de 2009

Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze... Hé-lá-á-á-á-á-á-á!

Há muito tempo li esse poema de Álvaro de Campos, o heterônimo pessoano que mais gosto, tanto quanto Bernardo Soares. Escritas diferentes, mas a mesma inquietude. Minto; o ex-engenheiro é mais eufórico, inflamável se for preciso, "mete dentro as portas"; enquanto o ajudante de guarda-livros é o pacato analista das sensações, do cotidiano, da vulgaridade, da rua observada pela varanda do seu quarto na Rua dos Douradores.

Enfim: lembro-me de ter lido este poema a long time ago. Chama-se Saudação a Walt Whitman. Abaixo, duas estrofes, que assim como o verso no título, nunca fizeram tanto sentido.

Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!

Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo, esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstrata do corpo fazendo maelstroms na alma...


Vontade de explodir numa comunhão infinita com o mundo!
Para além...

19 de outubro de 2009

J´ai avalé une fameuse gorgée de poison

As entranhas me ardem também,
mas creio que é de fome.
Bendito fosse o conselho,
se eu o tivesse seguido,
se ele tivesse existido.

Mas quem o teria soprado?
Soprou muito longe?

Se tudo vem do vento o vento leva
tudo vem do vento vem tudo e vai
E no final o que eu  tenho 
São músculos de sal, entranhas de pedra e coração de batata!
Que bela sopa, a sua vida...

12 de outubro de 2009

B-I-C-I-C-L-E-T-A!

Feliz Dia das Crianças!

Copiado do Barba, Até Onde Deu pra Ir de Biclicleta (que postou recentemente outro ótimo vídeo, do ciclista Lance Armstrong - Just Do It!).

11 de outubro de 2009

Enfim-fim: foi, fomos, fundo...

Os fragmentos abaixo são a narrativa da última semana, quando viajei com mais três colegas realizando um survey (aplicando questionários) para o LAPST - Laboratório de Pesquisa em Sociologia do Trabalho. O objetivo era obter mais informações sobre os pequenos e médios produtores rurais e o impacto do PRONAF - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Famiiliar nas suas vidas.


05/10 - PIRACEMA

Chegamos a Piracema por volta de meio-dia, depois de duas horas de atraso na saída prevista para as 8h e que só aconteceu às dez. Um prelúdio dos inumeráveis imprevistos da viagem. Também erramos a entrada para a cidade. Por sorte o retorno na rodovia (BR-381) era perto, cerca de 9km adiante. Almoçamos e fomos procurar o técnico da Emater, nosso contato que iria nos indicar onde encontrar os produtores rurais que buscávamos. Seu Zé Roberto não gostou muito de nossa chegada naquele dia, pois nos esperava no fim da semana. Segundo ele, iria nos preparar um mapa com a localização dos produtores da região, pra não nos perdermos e encontrarmos o maior número possível. Com o adiantamento da chegada, ele não podia nos ajudar muito. Mesmo assim nos deu uma direção onde poderíamos encontrar alguns, e depois eu saí com ele pela cidade na tentativa de encontrar outros. Encontramos um. Já passava das quatro horas, seu Zé Roberto prestes a largar o expediente e os outros três pesquisadores ainda sem voltar das fazendas. O técnico insistia que não podia fazer muito pela gente, pois não imaginava que viríamos agora. Se tudo correra bem, ainda faltaria 16 dos 20 questionários a fazer na cidade. Os telefones celulares não davam sinal, e eu fiquei impossibilitado de saber como estava o resto da equipe. Seu Zé Roberto já se despedia e eu pensei que o dia já terminara fracassado. Pouco tempo depois Raquel me liga com uma indicação de uma produtora na cidade. Não a encontro, mas consigo agendar uma entrevista pra mais tarde com outro produtor. Já é quase noite e encontro seu Zé Roberto, já no carro próprio (e não da Emater) que me leva ao encontro de mais dois produtores. Reencontro o pessoal e conseguimos mais entrevistas à noite. Finalizamos o dia com cerca de 15 questionários! Já cansados, mas com uma esperança para o dia seguinte que contrastava com o horizonte pessimista da chegada (depois do contato com o técnico da Emater que, a despeito de suas palavras, nos ajudou bastante, realizando mais do que seu trabalho como técnico, nos auxiliando além do seu horário de expediente), procuramos um hotel. Quartos razoáveis, baratos. Café da manhã: café, leite, pão e bolo. Contudo, a responsável pelo hotel era de uma languidez terrível, de olhar medroso e de uma voz que mais parecia um gemido ou lamento em suas respostas mal pronunciadas.

06/10 – CRUCILÂNDIA

Acordamos às 6:30h (esse seria nosso horário habitual de despertar durante toda a semana), tomamos um café rápido, pedimos a nota fiscal e seguimos novamente para a Emater a fim de terminarmos a cota de questionários. Em Piracema nos demos conta da dificuldade de conseguir nota fiscal (oficial, com CNPJ e outras formalidades que contadores adoram) em cidades pequenas. Para o pequeno comerciante é um prejuízo (e também pra o grande, mas para o pequeno o custo marginal é maior) emitir nota fiscal regularmente, tornando-se alvo da Receita Federal. Não é possível (para nós) prestar contas de tudo. Não é saudável financeiramente (para eles) prestar contas de tudo. O Estado não consegue ter ciência nem controle total de cada ação do indivíduo. Ainda bem.

Terminada a cota, partimos depois do almoço para Crucilândia (durante toda a viagem eu ira confundir o nome da cidade com Criciúma, cidade catarinense). Às 14h, já na estrada de terra que liga as duas cidades, paro numa pequena casa de tijolo mal rebocada para realizar a primeira entrevista no município. Uma mulher aparentando pouco mais de 30 anos me recebe timidamente, com seus quatro cachorros e três gatinhos. Ela diz que recolhe esses animais, abandonados que são (por outros animais) naquele trecho da estrada. Descubro que tem não trinta, mas vinte e quatro anos. Fica envergonhada quando pergunto se é casada ou solteira. Segundo ela, não é casada (de papel passado), mas mora com o companheiro que é separado (mesma condição de Elisabete, quase 50 anos, que encontraria em Bonfim. Classifico ambas como casadas). Para as pessoas do interior, ser casado formalmente, de “papel passado”, é muito importante e significativo. Ao fim da entrevista peço um copo d´água e vejo os três gatinhos de que me falara presos numa gaiola (bem maior do que aquelas onde ficariam se estivessem numa loja de animais) e pergunto por que estão ali: “É porque acabei de lavar e pus eles pra secar...se eles fica solto o [cachorro] grande come...”. Suely tem um cuidado maternal, a seu modo, com esses animaizinhos. A roça envelhece as pessoas.

Já cansado, com chuva e sem guarda-chuva, faço a última entrevista do dia com um distinto senhor que termina de retirar cana de uma carroça num pequeno barracão próximo da casa sede. Seu Tião tem 72 anos, um corpo franzino e uma risada espirituosa. Lembrou-me uma versão masculina da minha avó. Vida sofrida, muito trabalho e uma resignação alegre. Numa entrevista que dura em média cerca de 30min ou 40min, fiquei duas horas (só no questionário!) com seu Tião. Não havia como cortar suas digressões: suas falas sobre a dificuldade do trabalho no campo na época atual, que sempre terminavam com uma gostosa risada; sobre a dificuldade (e custo) de arrumar alguém para trabalhar com ele e a dificuldade atual das novas gerações permanecerem no campo; sobre um filho seu que não queria mais “mexer na lida” na roça (“mas a gente não pode prender, né? Tem que fazer o que gosta...”). Sobre o outro filho, que esse sim ajudava-o, e que apareceu no final ajudando-o inclusive a responder o questionário de forma mais “objetiva”. Gostaria de poder conversar mais com seu Tião, sem questionário; ouvir mais aquele senhor que não fez outra coisa na vida senão plantar milho, mandioca e tirar leite, que ainda hoje leva de carroça para vender na cooperativa da cidade. Um senhor que planta “3 litros” de “lavoura permanente” – “lavoura perene” no questionário, mas quem vai entender isso? – e recebe gentilmente um estudante mal identificado que pediu pra fazer “umas perguntinhas” e só “passava fôia e fôia e fôia... quase um caderno!” – ouvi-o dizer no outro dia de manhã, quando entregava leite na cooperativa, brincando com outro produtor que eu também entrevistava. (P.S.: ter uma plantação de 3 litros de milho parece não fazer sentido. Mas é a área que se consegue plantar com uma garrafa e meia, de coca-cola 2 litros, cheia de milho. Pra que saber isso em hectares? As coisas funcionam assim. As pessoas sabem disso lá).

Encontramos uma pequena pensão para dormir por volta das 20h, a pior de toda viagem. Dormimos às 23h.

07/10 - BONFIM

Acordamos ás 6:30h novamente e fomos em busca de uma padaria, pois não havia café onde dormimos. Em seguida voltamos à Emater, cujo técnico não encontramos no dia anterior. Seguimos com ele a pé rumo à praça em frente à igreja e ele já foi logo apontando: “Ali tem um produtor rural, aquele ali é também... ali tem mais outros dois...”. Fechamos a cota, almoçamos e seguimos para Bonfim também por estrada de terra.

Primeira crise-conflito pessoal no campo (o campo no campo): somos perguntadores profissionais. Somos agentes aplicadores de um survey – mesma matriz etimológica de suveiller: vigiar, exercer o controle, manter a ordem. Somos agentes do inquérito, sugadores de informação cujo destino temos uma vaga idéia. Somos colegas dos fiscais, investigadores e inquisidores. Ademais, qual o retorno que damos ou daremos a essas pessoas tão gentis, desconfiadas a princípio, mas muito receptivas mesmo ao serem invadidas na privacidade e sossego das suas residências? Mal sabemos dar informações sobre a pesquisa, além de visar “conhecer a realidade (sic) dos produtores rurais do estado de Minas Gerais bem como os impactos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familair – o PRONAF”. Sem contar o constrangimento de não saber explicar o que significam termos técnicos do questionário, em perguntas como “o Sr.(a) faz uso de CARPIDEIRA?” (seriam aquelas mulheres pagas para chorar em velórios alheios?), ou “o Sr.(a) faz uso de TERRAÇOS?” (para descansar ou fumar um cigarro, talvez?). Vergonha de fazer perguntas repetidas de um questionário mal feito. Os pequenos agricultores não dominam a linguagem dos agrônomos e veterinários. Os entrevistadores não participam da elaboração do questionário. Maldita Divisão Social do Trabalho. Maldita Alienação Social do Trabalho.

Em Bonfim não encontramos o técnico da Emater, e resolvemos seguir sozinhos, por caminho indicado pelos nativos. Informaram-nos da existência de um lugar, um povoado perto, pertencente a Bonfim, onde se localizavam diversos produtores rurais, bem próximos um do outro, a distâncias que poderíamos percorrer a pé. Era o nosso Eldorado, nossa Xangrilá dos questionários! Ficamos esperançosos de terminar a cota e seguir para Brumadinho ainda naquele dia. Claro que não encontramos o lugar – que provavelmente não existia –, andamos bastante, tomamos chuva, encontramos muitas casas vazias (era feriado na cidade e muitos produtores partiram pra Belo Horizonte) e fizemos menos questionários do que de costume. Como diria Malinowski, não se precisa de muito para realizar o trabalho de campo: apenas não seja um idiota completo.

Na volta para a cidade, já à noite e exaustos, procuramos como de costume lugar para dormir. Olhamos o preço da primeira pensão e ficamos de voltar depois. Estávamos famintos e iríamos comer primeiro. Não nos preocupamos, pois nos informaram da existência de duas pensões na pequena cidade que contava com algumas casas históricas preservadas. Depois da pizza, já passava de 21h e fomos conferir a outra pensão. Ao contrário do que imaginávamos, não havia quartos. Voltamos para a primeira. Um antigo e grande casarão, ao lado de um posto de gasolina. A porta entreaberta com alguns adolescentes no beiral, conversando, provavelmente antes de voltarem para casa depois da aula à noite. Entramos na casa-hotel e só encontramos hóspedes. Leve pânico de não termos lugar pra dormir naquele dia. Chovia. Informam-nos que seu Dito, o responsável, mora em frente. Tocamos campainha e nada. Ele mora no segundo andar. Gritamos. Enfim um senhor nos atende, mas diz não ter quartos. Insistimos, dizemos que apenas queremos um lugar para dormir e nos esforçamos para dar a entender que não somos turistas ou jovens boêmios. Seu dito desce com quatro toalhas e dispensamos duas, pois apenas dois de nós estavam sem toalha. Pagamos adiantado, dizendo que sairíamos cedo no outro dia e que estávamos muito agradecidos. Tal qual uma trovoada que traz a idéia de chuva, mas não necessariamente a água, pensamos que teríamos que dormir no carro (ou encontrar outra alternativa) naquela noite.

08/ 10 – IGARAPÉ

Acordamos como de costume às 6:30h. Pela primeira vez, não tenho certeza se quero realmente levantar da cama. O dia amanheceu chuvoso, um resfriado se insinua nas minhas vias respiratórias e eu gostei do cobertor. Mas tenho que me levantar pois ainda há muito o que fazer. Há café e pão na mesa. Raquel já está tomando café. Eu vou ao banheiro. Danielle está já arrumada, porém estirada na cama, possivelmente se esforçando para que o corpo obedeça ao dever também. Volto para o quarto e é agora que Douglas acorda. Ele é mais prático para a vida. Eu tenho de acordar mais cedo pois sou muito devagar, principalmente na parte da manhã. Foi a partir de ontem que nos conhecemos mais uns aos outros. Douglas, além de aplicador, também é nosso motorista. Já foi policial (não de rua, mas de escritório) e está acostumado a fazer pesquisa de opinião no mercado. Sujeito de poucas palavras, muito prático para a vida e que tem interesse em ciências políticas. Provavelmente foi o que mais aplicou questionários na viagem. A Danielle eu já conhecia de vista, mas nunca havíamos conversado. Ela gosta de fotografia, arte e sociologia. Muito crítica, muito singela e com um ótimo senso de localização. Ela tem um gato também, que se chama Tito. Contei a ela sobre o Montito, meu gato. A Raquel faz mestrado, acho que no IUPERJ. Garota batalhadora, determinada, que já foi do PET na UFMG e tem interesse em estudar mais sobre desigualdade social – a grande problemática brasileira. Eu, bem, sou esse pretenso antropólogo em constante conflito com o campo e que está a fumar por demais nessa última semana. Tomo o café e vou fumar um cigarro na varanda, contemplando a chuva. Quem dera pudéssemos ficar mais. A cidade me pareceu agradável. Termino o cigarro e a chuva diminuiu. Temos de sair agora. Não há mais um pão sequer na mesa do café. Espero que seu Dito compre mais, ou os outros hóspedes ficarão ressabiados.

Concluímos que o caminho pela estrada de terra para Brumadinho era inviável. Segundo os nativos do lugar, corríamos o risco de nos perder, pois teríamos que pegar muitos desvios devido a uma ponte que quebrou. Aconselharam-nos o caminho pela BR-381: mais longo, mas possibilitaria que chegássemos mais rápido. Resolvemos ir direto para Igarapé, e depois Brumadinho. Na cidade da água mineral, encontramos seu Quintela, técnico da Emater, que nos indicou alguns comerciantes próximos e deu o endereço de outros mais afastados. Igarapé, diferentemente das cidadezinhas que estávamos acostumados, era uma cidade maior, próxima da rodovia. Os caminhos são mais sinuosos e as distâncias são maiores.

Numa loja de insumos próxima à prefeitura entrevistei seu Miguel. Ele não residia na unidade produtora. Resmungava toda vez que o produtor rural hoje é menos valorizado do que um mendigo, menos até do que um cachorro vira-latas. O poder público, os políticos (e por que não, a classe média?) se comove mais com os últimos do que com o primeiro. Mais tarde entrevistei seu Takashi, um imigrante japonês de 72 anos (casado com uma mulher de 36) que veio para o Brasil na década de sessenta, quando, segundo ele, o governo japonês incentivava e financiava a imigração. Ele disse que era formado em sociologia também, quando me perguntou que curso fazia; e que trabalhara numa firma de publicidade em Tókio antes de emigrar. Outro japonês, que outro membro da equipe entrevistou, nos felicitou com alguns quilos de verduras e legumes, que dividimos em Belo Horizonte. Havia também dona Tereza, uma senhora de 62 que, como muitos outros, também sempre morou na roça, e se lamentava de não poder mais trabalhar, sofrendo de dores na coluna e outras enfermidades. Disse-me que antigamente se plantava muito mais coisas lá, até rapadura se fazia. Mas hoje o terreno está dividido, a conjuntura e as condições são outras. Contou-me que sentia muitas saudades da época de menina, quando podia trabalhar e plantar de tudo; e que recentemente, um de seus filhos a encontrou chorando, sentada no terreiro, lembrando desses tempos férteis.

Fim do dia, e é hora de encontrar pouso mais uma vez. Em Igarapé não devia ser difícil, afinal de contas a cidade era maior. Refletimos se valia a pena dormir lá ou seguir ainda na quinta-feira para Brumadinho. Resolvemos ficar, pois faltavam ainda oito questionários a serem aplicados em Igarapé. Perguntamos para algumas jovens na praça da cidade onde era possível encontrarmos uma pousada. Indicam-nos a direção de onde acabávamos de voltar da aplicação dos questionários. Havia algo estranho, ou ao menos devia haver outro lugar. Nesse meio tempo uma das meninas do grupo volta e pergunta: “É uma pensão que vocês querem?”. Eu usara o termo errado: pensão é diferente de pousada. Seguimos as primeiras instruções do caminho indicado e resolvermos perguntar de novo, pois já não lembrávamos. Resolvi usar o termo hotel dessa vez, e perguntei para um sujeito sentado em frente à igreja: “Você sabe me dizer onde tem um hotelzinho por aqui?”. Fugi do fogo pra fogueira: “Um motelzinho? Ah, tem um ali...”, ele respondeu. Não agüentamos, caímos na gargalhada e nem esperamos ele terminar. Agradecemos e seguimos. Resolvi adotar o termo pensão a partir de então. Assim não haveria erro. Paramos num bar e eu perguntei ao senhor onde encontraríamos uma. Ele esboçou um caminho, dizendo ora pra seguirmos e virarmos à esquerda, ora pra seguirmos e virarmos à direita. Ele parecia não estar muito certo quanto aos nomes das direções. O Douglas, para tentar ajudar, fez um sinal com as mãos dizendo “A gente vira pra lá (e dobrava a mão direita fazendo sinal de quem vai virar) ou pra cá (e repetia o gesto com a esquerda)?”. E eis a resposta da figura, espontâneo, surreal, surpreendente: “Não, é pra !”, apontando a mão pra frente, sem dobrar, indicando uma virada em linha reta, praticamente uma terceira via. Essa foi a melhor do dia.

Encontramos o tal hotel, que era caro. Perguntamos por outro e encontramos (talvez o mais razoável de toda viagem). Jantamos no restaurante localizado no térreo: um prato gigantesco, que eu cheguei a pensar que não iria conseguir.

09/ 10 – BETIM

Acordamos às sete horas dessa vez. Estávamos cada vez mais exaustos dessa rotina de perguntadores viajantes. Voltamos à Emater, com uma faísca de esperança de que muitos produtores passassem por lá. Seu Quintela disse que era imprevisível dizer quantos produtores passariam por lá naquele dia, se é que passariam. A essa hora muitos estavam no CEASA. Essa palavra brilhou. Como não pensamos nisso antes? Toda manhã um número considerável de produtores vai vender sua safra no grande mercado de horti-fruti. Produtores de várias regiões, inclusive Piracema, Crucilândia, Brumadinho, Igarapé e Betim. Não podíamos demorar, pois as atividades do mercado livre de produtores se encerram às 14h. As pessoas estão lá desde a madrugada, chegando muitas vezes por volta das 3h da manhã. Conseguimos chegar antes das 10h, e priorizamos os produtores de Igarapé e Brumadinho. Tive a impressão de estar na bolsa de valores das verduras: um grande galpão, muitas caixas, negócios feitos rapidamente e um grande painel luminoso com a cotação das hortaliças: hoje, ontem, no Rio de Janeiro, em São Paulo e aqui. Impressionou-me a enorme quantidade de caixas puxadas em carrinhos-carroças pelos carregadores, muitas vezes senhores de idade avançada. Impressionante também o machismo torpe de muitos entrevistados durante as entrevista, que se referiam às mulheres (suas esposas, filhas, colegas ou empregadas) com termos pejorativos, abusivos e de mal gosto. Notamos depois que parece ser uma constante naquele meio, quando ao pedir informação a uma transeunte, tive imensa resistência de que me atendesse ao abordá-la de dentro do carro.

Almoçamos no CEASA (creio que o melhor almoço até então) e seguimos pra Betim. A secretária da Emater (o técnico não se encontrava), muito ranzinza, não colaborou muito; não colaborou nada. Sorte que encontramos seu Zé Maria, creio que do setor responsável pelos assentamentos da reforma agrária, que nos indicou o assentamento Dom Orione, perto de uma mineradora. Depois de três paradas informativas-confirmativas, conseguimos chegar. Era nosso último dia, nenhum de nós estava disposto a perguntar mais nada no sábado e estávamos ansiosos por dormir em nossas camas. No assentamento abordei os lavradores em meio à suas hortas, trabalhando (eles e eu) entre um canteiro e outro. Seu Afonso foi muito gentil, disse que eu podia entrevistá-lo e pediu desculpas por não convidar-me para entrar e sentar, pois tinha muito o que fazer no cuidado com seus pés de alface. Agradeci e falei para não se incomodar. Em várias perguntas o humilde senhor pediu-me desculpas por não saber como me responder, por não saber se sua resposta me responderia a questão, se estava suficientemente clara. Não aceitei as desculpas, dizendo a ele que era eu quem devia pedi-las, por realizar um questionário mal feito cujas perguntas não são claras para os entrevistados. Ficamos num gentil duelo de compadres. Terminado o questionário eu o agradeci, e ele me agradeceu na esperança de poder me ajudar. Obrigado, seu Afonso, e me desculpe mais uma vez o incômodo, a perturbação durante seu trabalho – e as perguntas mal-feitas!

Pouco tempo depois entrevisto um meeiro, o único em toda a semana. No assentamento encontro mais uma falha no questionário: a categorização dos regimes de posse de terra não contempla os assentados: há apenas PROPRIETÁRIO, ARRENDATÁRIO E MEEIRO (PARCEIRO). Os assentados – e todos são esclarecidos quanto a isso – não são proprietários nem arrendatários, mas possuem um certificado de posse, de assentamento. Só depois de um tempo é que possuirão a propriedade, me explicaria depois dona Júlia, uma agricultora mãe de quatro filhos e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Betim. Ela também é estudante de direito, na esperança de poder fazer mais por essa gente. 

Fim do dia, começa a anoitecer e meu coração bate, tanto por quem fica quanto por quem verei. Saudade dos meus, saudades dos que não têm ninguém – têm poucos, muito poucos – por eles. Saudade das conversas que não pude ter porque só fazia perguntar. Voltamos para Betim e paramos para abastecer. Decidimos que a jornada acabou: fizemos o possível e queremos nossas camas. Enfim uma cervejinha, um tira-gosto e as histórias da viagem. Percebemos que a dinâmica de acordar cada hora numa cama, numa cidade diferente e seguir viagem embaralhou nossas lembranças. Ficávamos confusos se tal episódio ocorrera em Bonfim ou Crucilândia, Piracema ou Igarapé. A semana também, apesar de passar muito veloz, se posicionava num passado outro. Os dias da semana estavam fora de ordem: nos surpreendíamos quando nos dávamos conta que tal fato aconteceu na quarta-feira, há apenas dois dias atrás, enquanto outros, ocorridos na segunda, pareciam mais próximos. A última semana, nosso passado mais recente, se tornava um passado distante, remoto, prematuramente antigo. Nem acreditávamos que acabara. Chacoalhar espaço-temporal que nos afetou de forma significativa.

Por último, mas não menos importante, tentamos estabelecer uma rota de entrega dos entrevistadores. Danielle desceria primeiro, depois Raquel, depois eu e finalmente Douglas, que ficaria com o carro. Chegar à casa da Dani foi fácil, com ela nos indicando. No entanto ela não estaria presente na volta, e tivemos lá nossas dificuldades. Mas já acostumados a percorrer ruas desconhecidas, e sem preocupação – pois enfim dormiríamos em casa sem acordar cedo – conseguimos pegar o caminho para a casa da Raquel. Passamos da entrada onde deveríamos virar. Depois de algumas voltas, direita, esquerda, direita, direita, conseguimos. Eu era o próximo. Enfim, fim. Acabou. Por sorte o Douglas sabia como chegar ao Caiçara, pois eu sou péssimo em direções. Fico feliz em conhecer essas pessoas próximas que eu desconhecia. Funcionamos bem como equipe. Foi uma experiência marcante, cansativa e diferente, essa semana no campo. Fomos longe, percorremos fundos meandros que nem imaginávamos. Foi distante, mas também próxima. Próxima e reveladora ao mesmo tempo: apesar de ter convivido de perto, e por relatos familiares, a realidade do campo, nunca fui tão afetado nem nunca senti o quão é difícil essa vida; o descaso do poder público; o problema dos atravessadores. E saber que são essas pessoas – e não aquelas que produzem soja e laranja pra exportação – que trazem a comida pra nossa mesa. 

20 de setembro de 2009

carro é para os fracos


Camaradas em duas rodas,

Próxima terça-feira, dia 22 de Setembro, é o Dia Mundial Sem Carros. Portanto encostemos os monstros-petro-valvulados e repensemos nossos modos de locomoção na cidade. O direito de ir e vir, a relação do sujeito com os lugares da cidade e com os transeuntes são cada vez mais sabotados pelo excesso de carros, ausência de ônibus, de vias para pedestre e para ciclistas, além da falta de políticas públicas que dêem conta do problema.

Então, terça-feira tem o Dia Mundial Sem Carros aqui em BH, com uma atividade pedalística – ou pedalada atívistica, se preferirem.

E, num contexto mais localizado, o pessoal do CACS/FAFICH/UFMG/BH/PLANETA TERRA(?) tá organizando o I Pedala Rubinho, dia 22 de Setembro, saída às 16h do prédio da FAFICH.

Pedalemos!

7 de setembro de 2009

Supercalifragilisticexpialidocious


num dia no início de setembro
friozinho de fim de inverno
houve uma parada que não era militar
não havia máquinas ou fardas ou marchas
só foguetes e bailes e festas

não eram sete,
mas quatro
quatro elementos

criadores:
quatro cheiros,
quatro cores,
quatro bichos,
quatro amores,
passado, presente, futuro, agora

era uma primavera avant la lettre
quando todos os botões de rosa estouraram
todos ao mesmo tempo
sob um céu azul mutante
roxo, vermelho, amarelo e verde
e caíram pétalas brancas borbulhantes
teria sido champanhe?, pensei

não, não era
era só uma moça
(digo só porque não há mais nada além
era como se dissesse "o mundo, só o mundo")
que desceu com seu guarda chuva Mary Poppins

todos os lugares em que eu
passava em sua companhia
tornavam-se coloridos
estouravam como bolinhas brancas
de champanhe-guarda-chuva

então o mundo parou de repente:
Supercalifragilisticexpialidocious
– ela disse, e num instante fomos
de Istambul à Paris
– não era qualquer Paris, vale dizer –
era uma cidade onde tudo que a gente quer tem
onde um filme infantil é denso no final e pede açúcar
onde o peixe tem gosto de iogurte
onde a calda do sorvete tem raiz, verde, forte
onde tem chocolate depois
onde o sono cansa de delícia
onde tem mel nas pessoas
onde a gente some um no outro
onde um mais um é igual a um

só faltou o
brunch
ela disse depois
e eu fiquei em dívida
não, não era em dívida
era em dádiva
mas na próxima faremos
uma mesa azul
com bolos e
muffins e sucos e chás
e ela
e nós
e o universo

três palavras para uma mesma manifestação

31 de agosto de 2009

le revé des âmes morts au dimanche


O dia já nascera um girassol com a cara dela no meio. Gravuras de um russo-francês que flertava com o cubismo encheram o dia de azul, verde, roxo, rosa. Magenta não é rosa. Seulement on Sibérie. Avec la force et l´entusiasme! Dor na coluna de Gógol. Vento ventila a van. Frio, frio, frio. Calor. Frio. Calor, calor. Frio. Açúcar-minus. Quer brincar de cor-de-rosa?, ele disse. É magenta, não é rosa! Brincar de calor faz suar. O verde refresca. Se Deus quisesse que acreditássemos nele apareceria pra mim, Aqui estou!. Se Deus é brincar e brincar é calor e calor esquenta Ele não existe. Ela não existe. O que existe é a flor. O que existe é o beija-flor.

"Então não importa o caminho que você escolha", disse o Gato.
"... contanto que dê em algum lugar", completou Alice.
"Oh, você pode ter certeza que chegará", tranquilizou o Gato,
"se caminhar bastante".

26 de agosto de 2009

um vasto e único dia burguês


O transporte liga dois pontos por algumas horas. Devido ao encolhimento do planeta, decorrente de uma superabundância espacial do presente, linhas são construídas para viabilizar o acesso a esses pontos. No entrecruzamento virtualmente infinito dos destinos as referências se multiplicam por entre as janelas. Meios de transporte tornam-se lugares habitados a partir de uma configuração instantânea de posições, em meio a passagens provisórias e efêmeras. Cada corpo ocupa o seu lugar num mundo prometido à individualidade, perpassa(n)do pela paisagem-texto. Passar. Não parar. Palimpsestos espaço-temporais em que constantemente se reinscreve o jogo da identidade e da relação. A sociedade inorgânica é uma abundância de vazios densamente povoada por tensôes solitárias.


23 de agosto de 2009

the horror... the horror...





A gripe suína, vulgo Influenza A (H1N1), não é só mais uma mutação desse famigerado agente biológico que volta e meia aparece como um dos quatro cavaleiros do apocalipse. Na verdade, isso tudo é parte de um plano maior, arquitetado de forma macabra pela reitoria da uéfiêmigê em conjunto com a CIAiei estadunidense para acabar com o Milharal da FAFICH, lugar de exímia produção (conceito 9 na CAPES) daquela universidade. O vírus foi disseminado no mês de julho, a fim de atrasar as aulas por uma semana em agosto sem causar nenhuma suspeita. Desse modo teriam o álibi necessário para adiantar as obras do Campo Zeta (Zeta Camp) surpreendendo a todos que, encontrando-a pela metade, procastinariam o problema ou nada fariam.

Agora qual será o fim da coruja, símbolo por excelência do saber que reina naquele espaço verde? Mais carros estudarão naquela universidade? Aqueles arames farpados, estão protegendo o que de quem? E o que diabos é o Zeta Camp?

Drop the bomb, terminate them all.

22 de agosto de 2009

Creep

Creep - Radiohead

When you were here before
Couldn't look you in the eye
You're just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
I wish I was special
You´re so very special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here

I don't care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul
I want you to notice
When I'm not around
You're so very special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here.

She's running out again
She's running out
She run, run, run, run
Run

Whatever makes you happy
Whatever you want
So very special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here
I don't belong me

21 de agosto de 2009

Penso, logo me vem uma preguiça para executar o que nem sei


Como disse o meu amigo René, filosofia não surge do nada. Não é de um insight genial que aquela frase sempre citada vai surgir. Filosofia é 90% suor e 10% inspiração. Vide o rascunho acima, retirado do blog do próprio René.

Outros blogs bacanas, ou nem tanto, aqui.

20 de agosto de 2009

Comments ANONYMOUS is ON

Porque quem não quer mostrar o rosto também tem algo luminoso a dizer.

16 de agosto de 2009

conGRADulations!


Mariana, parabéns pela sua formatura! Espero que goste do souvenir imagético-poético-internético.

P.S.: apesar do vinho que faltou e a caipirinha que acabou cedo, o licor de Amarula e o café estavam ótimos!

13 de agosto de 2009

today is gonna be the day


Daqui a algumas horas começa tudo de novo – diferente, espero. Mais um semestre de faculdade, rever as pessoas, os amigos, os conhecidos, os desafetos, as paixões mal resolvidas, a hipocrisia social, as caras novas e, quem sabe, alguém diferente, se possível interessante. "Repetir, repetir – até ficar diferente". Talvez devesse ir menos a faculdade: não me sinto bem naquele lugar, entre aquela gente. Talvez devesse ir mais: conhecer melhor as pessoas, e estudar mais. Talvez não devesse fazer nada disso, e mudar de planeta. Talvez devesse fazer tudo isso: ir mais, indo menos; operando de forma alienígena, alterado, alterando: alter-ação. Ser outro, sendo o mesmo, no lugar de sempre. O passado, bem, já foi tragado pelo tempo, que bateu tudo no liquidificador. Resta beber o que sobrou. Com um pouquinho de açúcar, quem sabe? Ou jogar fora, e bater outro, em outra velocidade, outros sabores. De novo. A vida é um liquidificador. Ou, como disse Bernardo Soares:

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara , que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

A idéia inicial não era essa. Contudo, começa a decantar o meu passado triturado, processado e liquidificado. Se eu era, hoje "sou-me". Quem decanta, canta, que seja (n)um canto qualquer, (n)um canto.

Another brick in the wall?
Wonderwall...
 
P.S.: a imagem acima é uma montagem a partir de foto original Personade Thiago Barnabé.

12 de agosto de 2009

holy (in spite of himself) nihilist


Aquilo de que falo é da ausência de buraco, de uma espécie de sofrimento frio e sem imagens, sem sentimento, e que é como um choque indescritível de abortos.                                    (Antonin Artaud em carta a Jacques Rivière)

Para acabar com o julgamento de Deus - Antonin Artaud

11 de agosto de 2009

marengofômpila


Marengofômpila nada. É apenas um vírus fagocitado visto por um espectômetro de massa na lua cheia do mês de abril três meses antes da digestão findar durante seu infarto de miocárdio no Mar Vermelho. Ou seria Amarelo? 

vontade de cabum!

benditos os que não confiam a vida a ninguém


Uma vida sem esperança mas sem desespero. Não se pode esperar muito das pessoas. Não se deve esperar nada delas. Seria injusto para com elas; e frustrante para com nós mesmos. Se nem eles mesmos têm ciência do que estão fazendo, por que pedir para as crianças  pagarem a conta?

Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.
Lucas 23,34

3 de agosto de 2009

a preguiça do prego


Antes esparramado ao entardecer a dar de cara contra o muro.

2 de agosto de 2009

o progresso é pra lá, ó...


Eixo central de uma ética da necessidade, o ideal de progresso é nada mais que uma noção vazia em si mesma, que busca o novo sem novidade, procurando legitimar-se apenas por ser mais atual, logo mais válida em relação a uma história linear e ascendente. O progresso torna-se rotina. Veja-se a sociedade de consumo: há sempre coisas novas no mercado, requeridas pela própria fisiologia do sistema. A contínua renovação nada tem de “revolucionário” ou perturbador: o novo aqui é o que permite que as coisas prossigam do mesmo modo, uma atualização que permite a sobrevivência do sistema. O mesmo acontece na famigerada onda ecológica. Desenvolvimento sustentável hoje é um eufemismo para sustentabilidade do desenvolvimento. Não se ataca o cerne do problema, a ética da necessidade em que estamos inseridos. A indústria criou novas frentes de consumo, como a das sacolas de pano ou dos alimentos orgânicos ou os carros total flex. A agroindústria que produz soja para alimentar vacas chinesas está aí, firme e forte, enquanto pessoas ainda vivem em condições miseráveis e cada vez mais há mais espaço para carros do que para pessoas nas cidades, grandes e pequenas. E o Ministério do Meio Ambiente, naquela propaganda ridícula, ao invés de incentivar as pessoas a usar ônibus, metrô, andar a pé, de bicicleta ou pedir carona, pede apenas que mantenham o carro regulado!!

A economia está baseada no trabalho, que se baseia na produção, por sua vez baseada na falta. Para que as engrenagens do sistema girem é preciso faltar antes, é preciso que tudo falte; ou que se produza algo “novo” a fim de se superar o antigo, démodé, insuficiente, incompleto. Ética da necessidade, ética da superação. Teodicéia cristã da busca da salvação (a perfeição no céu), odisséia da perfectibilidade intramundana (otimização do presente), a finalidade última do progresso é criar condições pra que ele sempre seja possível no futuro. Tal qual aquelas rodinhas para ramsters. Não há fim. É apenas mais do mesmo.


1 de agosto de 2009

tecnicolor

"Through the window, the nice thing on earth will pass by
Moving slowly"

Os Mutantes - tecnicolor

31 de julho de 2009

23.09.07


YOU KNOW YOU´RE RIGHT

I will never bother you
I will never promise to
I will never follow you
I will never bother you
Never speak a word again
I will crawl away for good

I will move away from here
You won't be afraid of fear
No thought was put into this
I always knew it would come to this
Things have never been so swell
I have never failed to fail

Pain, Pain, Pain

You know you're right
You know you're right
You know you're right

Nirvana
"You know you´re right"

28 de julho de 2009

time is money

O PAPALAGUI NÃO TEM TEMPO

O
Papalagui gosta do metal redondo e do papel pesado; gosta de meter para dentro da barriga muitos líquidos que saem das frutas mortas, além da carne do porco e da vaca, e de outros animais horríveis; mas ele gosta, principalmente, daquilo que não se pode pegar e que, no entanto, existe: o tempo. Fala muito no tempo, diz muita tolice a respeito do tempo. Nunca existe mais tempo do que aquele que vai do nascer ao pôr do sol e, no entanto, isto nunca é suficiente para o Papalagui.

O
Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem; e acusa o Grande Espírito por não ter lhe dado mais. Chega a blasfemar contra Deus, contra a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo em pedaços cada dia que se levanta de acordo com um plano muito exato. Divide o dia, tal qual um homem partiria um côco mole com uma faca em pedaços cada vez menores. Todos os pedaços têm nome: segundo, minuto, hora. O segundo é menor do que o minuto, este é menor do que a hora; juntos, minutos e segundos formam a hora e são precisos sessenta minutos e uma quantidade maior de segundos para fazer o que se chama hora.

É uma coisa complicada que nunca entendi porque faz mal, estar pensando mais do que é necessário em coisas assim pueris. Mas o
Papalagui faz disso uma ciência importante: os homens, as mulheres, até as crianças que mal se têm nas pernas usam tanga, e correntes grossas de metal, ou pendurada no pescoço, ou atadas com tiras de couro no pulso, certa pequena máquina, redonda, na qual lêem o tempo, leitura que não é fácil, que se ensina às crianças, aproximando-lhes do ouvido a máquina para divertí-las.

Esta máquina fácil de carregar em dois dedos, parece-se por dentro com as máquinas que existem dentro dos grandes navios, que todos vós conheceis. Mas também existem máquinas do tempo grandes e pesadas, que se colocam dentro das cabanas, ou se suspendem bem alto para serem vistas de longe. Para indicar que se passou uma parte do tempo, há do lado de fora da máquina uns pequenos dedos; ao mesmo tempo, a máquina grita e um espírito bate no ferro que está do lado de dentro. Sim, produz-se muito barulho, um grande estrondo nas cidades européias quando uma parte do tempo passa.

Ao escutar este barulho, o
Papalagui queixa-se: "Que tristeza que mais uma hora tenha se passado". O Papalagui faz, então uma cara feia, como um homem que sofre muito; e no entanto, logo depois, vem outra hora novinha.

Só consigo entender isso pensando que se trata de doença grave. "O Tempo voa!"; "O Tempo corre feito um corcel!"; "Dêem um pouco mais de tempo": são as queixas do Branco.

Digo que deve ser uma espécie de doença porque, supondo que o Branco queira fazer alguma coisa, que seu coração queime de desejo, por exemplo, de sair para o sol, ou passear de canoa no rio, ou namorar sua mulher, o que acontece? Ele quase sempre estraga boa parte do seu prazer pensando, obstinado: "Não tenho tempo de me divertir". O tempo que ele tanto quer está ali, mas ele não consegue vê-lo. Fala em uma quantidade de coisas que lhe tomam o tempo, agarra-se, taciturno, queixoso, ao trabalho que não lhe dá alegria, que não o diverte, ao qual ninguém o obriga se não ele próprio. Mas, se de repente vê que tem tempo, que o tempo está ali mesmo, ou quando alguém lhe dá um tempo – os
Papalaguis estão sempre dando tempo uns aos outros, é uma das ações que mais se aprecia – aí não se sente feliz, ou porque lhe falta o desejo, ou está cansado do trabalho sem alegria. E está sempre querendo fazer amanhã o que tem tempo para fazer hoje.

Certos
Papalaguis dizem que nunca têm tempo: correm feito loucos de um lado para o outro; como se estivessem possuídos pelo aitú; e por onde passam levam a desgraça e o pavor por terem perdido o seu tempo. É um estado horrível, esta possessão que não há médico que cure, que contagia muitos homens e os faz desgraçados.

Todo
Papalagui é possuído pelo medo de perder seu tempo. Por isso todos sabem exatamente (e não só os homens, mas as mulheres e as crianças), quantas vezes a Lua e o Sol saíram desde que, pela primeira vez viram a grande luz. De fato, isso é tão sério que, a certos intervalos de tempo, se fazem festa com flores e comes e bebes. Muitas vezes percebi que achavam esquisito eu dizer, rindo, quando me perguntavam quantos anos tinha: "Não sei..." "Mas devias saber". Calava-me e pensava que era melhor não saber.

Ter tantos anos significa ter vivido um número preciso de Luas. É perigosa essa maneira de indagar e contar o número das luas porque assim se chega a saber quantas Luas dura a vida da maior parte dos homens. Todos prestam muita atenção nisso e, passando um número muito grande de Luas, dizem: "Agora, não vou demorar a morrer". E então essas pessoas perdem a alegria e morrem mesmo dentro de pouco tempo.

Pouca gente há na Europa que tenha tempo, de fato; talvez ninguém mesmo. É por isto que quase todos levam a vida correndo com a velocidade de pedras atiradas por alguém. Quase todos andam olhando e balançando com os braços para caminhar o mais depressa possível. Se alguém o faz parar, dizem, mal-humorados: "Não me aborreças, não tenho tempo, vê se aproveitas melhor o teu.". Dá a impressão de que aquele que anda depressa, vale mais e é mais valente do que aquele que anda devagar.

Vi um homem com a cabeça estourando, os olhos virados, a boca aberta feito a de um peixe agonizante, a cara passando de vermelha a verde, batendo com as mãos e os pés, porque um criado tinha chegado um pouquinho mais tarde do que prometera. Esse pouquinho era para ele um grande prejuízo, prejuízo irreparável. O criado teve de ir-se embora, o
Papalagui expulsou-o e recriminou-o: "Roubaste-me tempo demais! Quem não presta atenção ao tempo, não merece o tempo que tem!".

Só uma vez é que deparei com um homem que tinha muito tempo, que nunca se queixava de não tê-lo, mas era pobre; sujo, e desprezado. Os outros passavam longe dele, ninguém lhe dava importância. Não compreendi essa atitude porque ele andava sem pressa, com os olhos sorrindo, mansa, suavemente. Quando lhe falei, fez uma careta e disse, tristemente: "Nunca soube aproveitar o tempo; por isto, sou pobre, sou um bobalhão". Tinha tempo, mas não era feliz.

O
Papalagui emprega todas as forças que tem tentando alongar o tempo o mais possível. Serve-se da água e do fogo, da tempestade e dos relâmpagos que brilham no céu, para fazer parar o tempo. Põe rodas de ferro nos pés, dá asas às palavras que diz para ter mais tempo. Mas para que todo este esforço? O que é que o Papalagui faz com o tempo? Nunca compreendi bem, pelos seus gestos e suas palavras, ele sempre tenha me dado a impressão de alguém a quem o Grande Espírito convidou para um fono.

Acho que o tempo lhe escapa tal qual a cobra na mão molhada, justamente porque a segura com força demais. O
Papalagui não espera que o tempo venha até ele, mas sai ao seu alcance, sempre, sempre com as mãos estendidas e não lhe dá descanso, não deixa que o tempo descanse ao Sol. O tempo é quieto, pacato, gosta de descansar, de deitar-se à vontade na esteira. O Papalagui não sabe perceber onde está o tempo, não o entende e é por isto que o maltrata com os seus costumes rudes.

Ó amados irmãos! Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adianta-se aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele. Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega. Sabemos que no devido tempo havemos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas Luas nossas passaram. Devemos livrar o pobre
Papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhes ensinar que, do nascer ao pôr do Sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar.

(Extraído de O Papalagui. Comentários de Tuiávii, chefe da tribo nos Mares do Sul. Editora Marco Zero, Rio de Janeiro.)

Neste livro Tuiávii, Chefe da Tribo Tiaveá na Polinésia, relata ao seu povo as suas impressões a respeito do homem branco, seus costumes e sua cosmologia, observados durante uma viagem que fez à Europa. Vários objetos e atitudes tidos por nós como normais, como saber a data em que nasceu, ter uma profissão e pra que serve uma campainha, são descritos por um olhar (ainda) não domesticado pela civilização. Somos tão adestrados por uma ética judaico-cristã-ocidental-capitalista-necessitária que na maior parte das vezes enxergamos as coisas por uma única perspectiva, já de antemão marcada como normal ou anômala, correta ou desviante, bela ou horrenda. Por que não abrir outras janelas, perscrutar outros ângulos, familiarizar o estranho, estranhar o familiar, encontrar, como Lautréamont, a beleza no "encontro fortuito sobre uma mesa de dissecação, de uma máquina de costura e um guarda-chuva”?

Papalagui somos nós, o branco, o estrangeiro, o "civilizado". Traduzido literalmente, é aquele que furou o céu.



"mautito"

27 de julho de 2009

Why so serious?



Eu fiz o que faço melhor.

Peguei o seu planinho e fiz ele sair pela culatra.

Olhe o que eu fiz à cidade...

...com uns barris de gasolina e uma balas.

Sabe o que eu notei?

Ninguém entra em pânico enquanto corre como o planejado.

Mesmo se o plano for horripilante.

Se amanhã eu disser à imprensa que um vadio...

...vai levar tiro...

...ou se uns soldados vão se explodir...

Ninguém entra em pânico.

Porque tudo isso faz parte do plano.

Mas se eu disser que um prefeitinho vai morrer...

...todos ficam doidos!

Introduza um pouco de anarquia...

...altere a ordem estabelecida...

...e tudo vira caos.

Sou um agente do caos.

Sabe uma coisa do caos?

É O MEDO.

(Batman - The Dark Knight)

estranhamente humanos


Havia (des)comentado recentemente que gatos são estranhamente humanos, talvez por influência de Burroughs. O fato é que na última sexta o Montito foi protagonista de uma dramática cena de ciúmes. Mais humano, demasiadamente humano que ele, naquele dia, impossível. Não quero dizer que ciúmes seja o diferencial humano nesse caso, não é isso. Há outras cenas mais humanas que ciúmes, inclusive para um gato. Mesmo nessa foto, em que ele parece ou fazer pose de pensador, ou uma expressão de D´oh!, não foi tão humano quanto nesse memorável dia, em que ele mais parecia uma mulher histérica saída de um conto do Nelson Rodrigues do que um gato propriamente falando. Aliás, só faltou falar: ele miava desassossegadamente, de um lado para o outro, inquieto. Mordia ora um, ora outro. Chegou até a arremessar, abocanhando nossas pernas! No fim, tivemos que nos afastar: nós para um lado – da porta – e o gato para o outro.

Humanos, estranhamente humanos...